entre médicos e soldados

Nos filmes de guerra, sobretudo os que retratam as guerras mundiais, vemos que muitas vezes os médicos não são atacados pelos inimigos. Mesmo na guerra, há certa ética que estabelece que, naquele espaço de morte, existem pessoas dedicadas à manutenção da vida. Médicos e enfermeiros ocupam aquele espaço, mas com objetivos invertidos aos dos demais.

No meio da loucura da nossa guerra cotidiana, fico me perguntando quem os soldados militantes observam como dignos de serem poupados de suas violências, sejam físicas ou verbais. Quem, em meio ao caos, se levanta como promotor da paz? Quem, no campo do ódio, sai a semear amor, mesmo que isso pareça pequeno, improvável ou impossível?

Gosto de pensar que a identificação desses médicos na guerra seja a cruz, muitas vezes posicionada na testa, de forma evidente, para que todos a vejam rapidamente — seja para pedir auxílio, seja para não agredir aquele que se doa a curar.

É verdade que alguns dos exércitos mais violentos da história e da atualidade também usam a cruz como símbolo e identidade. Por isso, é necessária atenção: ostentar um símbolo não é suficiente para determinar quem é soldado e quem é médico. E me preocupa que a proporção de soldados com a cruz seja hoje maior do que a de médicos, a ponto de, humanamente, temer que em breve, quando os feridos de nossa guerra buscarem socorro, já não sintam esperança ao ver a cruz, mas medo.

Médicos não fogem da guerra, não são neutros, mas vão ao campo para curar. Curar, inclusive, inimigos, porque a cruz que eles carregam ainda considera a vida um bem mais valioso do que as disputas que levam as pessoas a se odiarem.

Texto por Hernani Medola.

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