
Seria engraçado se não fosse trágico, mas uma propaganda de chinelos foi o estopim para o mais novo ataque histérico da nossa vida política. Em um país com tantos problemas reais (violência, desigualdade, destruição do meio ambiente, corrupção…), nossa classe política e as redes sociais se engajaram em boicotar uma marca de calçados. Sendo que o último arroubo de consciência política foi bem recente, motivado por um vídeo de um cantor de muito dinheiro, mas pouco conhecimento, revoltado com um canal de televisão.
O mais curioso (ou maluco) é que a revolta não se limita ao submundo dos grupos de WhatsApp. Expoentes da política, gente graúda, em altos cargos, influente, embarcaram no “boicote” sustentado por uma infantilidade interpretativa. Só que, diferente da galera que se informa pelo zap, esses tubarões sabem bem o que estão fazendo. Essa gente não vai boicotar marca de chinelos populares, porque eles nem compram esse tipo de coisa (vi um vídeo engraçado em que uma personalidade do mundo político joga no lixo um par de chinelos novinho, que deve ter sido comprado ontem mesmo. Para boicotar a marca, ele precisou comprar um chinelo primeiro). Eles o fazem para cativar, para mobilizar sua base, para semear contenda com o objetivo de colher poder, porque, infelizmente, nossa política se resumiu a isso: dividir para conquistar.
Entender como manifestação ideológica o comercial em questão exige um contorcionismo interpretativo, mas, vamos lá, se além de apenas querer vender chinelos a marca estivesse realmente querendo passar uma mensagem, a mensagem seria: “não te desejo um ano novo com o pé direito; desejo um ano novo com os dois pés juntos, unidos, com tudo”. E eu, sinceramente, acredito que essa seria uma mensagem que precisa ser valorizada, celebrada, praticada.
Estamos às vésperas das festas de fim de ano que, até pouco tempo atrás (tempos mais simples, felizes e menos odiosos) significavam a alegria de poder estar com familiares e amigos que às vezes não se vê ao longo do ano todo. Achamos absolutamente normal abrir mão de um abraço e de um beijo no vô, na vó, no tio, no sobrinho, no neto, em nome de homens e mulheres que nem conhecemos e que jogam com as nossas vidas nos palácios de poder. Trocamos o amor real, por nós e pelos outros, pelo poder de outros.
Então, queridos, mesmo vocês fazendo por merecer algumas chineladas, desejo que vocês comecem o ano novo com os dois pés caminhando em direção aos outros, os dois braços abraçando a todos, com os dois olhos marejados de alegria pelo reencontro e essa boca bendita parando de falar besteira e distribuindo generosamente bênçãos e beijos.
Texto por Hernani Medola.
