não se pode domesticar um auê


“Ele não é um leão domesticado.” Esse é o bordão usado em Nárnia sempre que a ação do Leão não corresponde à expectativa de alguém.

Em nosso mundo, também nos frustramos e nos escandalizamos com o comportamento de um Deus não domesticado. O amor selvagem e indômito do Pai, que insiste em acolher gente de quem a gente não gosta, agride o nosso senso de mérito e justiça.

Ainda temos dificuldade de aceitar que o dono da festa escancarou a porta para que gente molambenta entrasse e ocupasse assentos à mesa que queríamos só pra gente. Porque, se quem entra pela porta tem sotaque gringo, usa roupa de grife e pula sob luz estroboscópica, é bênção. Mas se tiver sotaque brasileiro, saia rodada e estiver à luz de um candiero, só pode ser demônio.

Desde que a corte desembarcou em Salvador até a chegada do potencialmente alienante worship, o brasileiro vive uma crise identitária: uma vergonha de ser quem é, amalgamada com uma vontade alucinante de ser o outro. E, se meu deus é tudo aquilo de que eu gosto, então tudo o que eu não gosto só pode ser diabo.

Mas as portas do banquete foram arrombadas pelo dono da casa. A fé ganhou. A Maria entrou, o Zé também — eu, você e até os pentelhos que insistem em dizer que Jesus faz milagres em nome de Belzebu. Viva o auê do Marco Telles, da Ana Heloysa e do Coletivo Candiero.

O vento sopra pra onde quer, e segue soprando. Agora que a fé ganhou, meus caros, ou você se tranca no seu prédio de parede preta, ou você sai pra experimentar graciosamente os ventos desses novos tempos, dançar na ciranda da fé; participar desse auê.

Texto por Hernani Medola.

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