O Salmo 1:2 diz que é feliz aquela pessoa que encontra o seu prazer na Lei do Senhor. Como é feliz aquele que aprende a desejar, a encontrar prazer, naquilo que é genuinamente necessário.
Mas é um erro achar que isso é natural. Acreditar que a pessoa que encontra prazer em fazer aquilo que todos sabem que deveriam fazer o faz simplesmente porque foi agraciada pelos céus com um dom extraordinário de desejar exatamente o que precisa. É evidente que não é assim.
A Lei de Deus, assim como todas as leis, existe para regular um comportamento que não é natural nem unânime. Quando esperamos que, para o bem individual e/ou coletivo, alguma atitude ou comportamento correto seja exigido de todos (mas nem todos o praticam) estabelecemos uma regra, uma lei, que define parâmetros e limites.
E assim vamos nos disciplinando e nos tornando mais próximos daquilo que se espera de alguém bom. O que antes era enfadonho, uma chatice, uma regra sem sentido, vai se tornando um hábito tão intrincado, tão enraizado em nossa existência, que passamos a encontrar prazer e já não conseguimos deixar de nos comportar daquela forma.
Você provavelmente, quando criança, precisou levar uma bronca para escovar os dentes, tomar banho ou pentear os cabelos. E hoje, assim espero, encontra prazer em ter os dentes limpos, estar cheiroso e arrumado — ou, no mínimo, entende e reconhece a importância de manter esses hábitos para uma boa saúde. Deixar de fazer essas coisas, agora, causa incômodo.
Alguém que reconhece na vontade de Deus algo bom e a segue naturalmente começa a perceber, nesses comportamentos santos, uma nova natureza muito melhor do que sua natureza antiga, uma nova vontade, mais prazerosa do que as velhas vontades. É como a personagem da caverna de Platão, que descobre a vida no mundo exterior e percebe que aquilo que antes amava eram apenas sombras da verdadeira realidade.
Ah, como é feliz a pessoa que encontra o seu prazer na Lei de Deus! Não é um legalista fariseu, um hipócrita observador de regras, mas se torna um totem de amor que se manifesta de maneira alegre, generosa e genuína.
E isso se aplica a todos os aspectos da nossa vida.
Todos sabemos, ainda que superficialmente, qual é a melhor forma de nos alimentarmos, de nos exercitarmos, de nos relacionarmos social ou virtualmente , do que consumir como entretenimento… Podemos até tentar nos enganar, mas, lá no fundo, todos sabemos.
Aplicamos a todas essas áreas a falsa narrativa de “como é feliz quem naturalmente gosta de…”. Mas quem hoje encontra prazer nas coisas boas, não o encontrou por acaso, nem por um golpe de sorte. Na imensa maioria das vezes, isso é fruto de disciplina, persistência, de um hábito mudado ou adquirido a duras penas.
A maior parte das coisas que aprendemos vem por meio da disciplina de tentar fazer antes de saber fazer. Alguém só aprende a andar de bicicleta subindo em uma bicicleta antes de aprender; só aprende a nadar mergulhando na água sem saber nadar (sempre tomando as medidas necessárias para mitigar os riscos de cada atividade, obviamente). E o que no começo parecia difícil e desconfortável, para muitos, se torna um hábito, um prazer, uma boa necessidade.
Quer ser feliz e encontrar prazer na Lei de Deus? Viva uma vida de santidade antes de sentir vontade. Quer encontrar prazer na leitura da Bíblia? Leia persistentemente. Quer se alimentar melhor? Coma o que precisa ser comido, da forma que precisa, e não se engane achando que um dia vai naturalmente acordar com vontade de trocar um hambúrguer com batatas fritas por um prato de salada e filé de frango. Quer cuidar dignamente do corpo recebido como presente de Deus? Então exercite-se antes de acreditar que existe uma classe de pessoas que milagrosamente um dia passou a achar prazeroso acordar de madrugada ou dormir mais tarde para se exercitar em vez de ficar na cama.
À medida que essas ações inicialmente antinaturais se tornam rotina, você passa a perceber uma verdade maior, mas antes invisível, que se torna não evidente que você não quer mais voltar atrás. E, em determinados momentos, pode até parecer difícil, mas você já estará tão ciente da realidade que se perguntará: “Mas para onde irei, se só Tu tens palavras de vida?”
Vontade e necessidade se casam. E você se torna verdadeiramente feliz.
Texto por Hernani Medola.

