“não é sobre política”, mas sempre é

Não importa em qual situação ou o texto em que se esteja pregando ou estudando, 9 entre 10 pastores ou líderes usam a frase “não é sobre política” quando vão afirmar qualquer coisa que possa magoar os egos ou gerar questionamentos da audiência melindrada.

Acontece que sempre, irremediavelmente, logo após afirmar que “não é sobre política”, faz-se uma afirmação política. Não me entenda mal, mas se a afirmação posterior não tivesse uma implicação política, qual seria a necessidade de afirmar que “não é sobre política”?

Tudo no evangelho tem implicação política, porque política está em tudo que se relaciona a nossa vida. Quando Jesus não chancela a execução de uma mulher: política; quando Jesus ordena aos discípulos que alimentem a multidão e logo depois multiplica os pães para distribuição: política; “ide por todo o mundo”: política; quando Paulo questiona a postura de Pedro com os gentios: política; “cuidar do órfão , da viúva e do estrangeiro”: política; quando Tiago afirma que a fé sem obras é morta: política; quando Paulo orienta Filemon a receber seu escravo fugitivo como um irmão: política. Os exemplos são infinitos.

Paradoxalmente, “não é sobre política” não é um versículo bíblico. Mesmo diante de tantos exemplos e discursos que reforçam o aspecto político do Evangelho, em nenhum momento registrou-se a preocupação de esclarecer que não se estava falando de política.

São sintomas de uma igreja cada vez mais identificada e comprometida com discursos políticos diferentes do Evangelho. Cada vez mais resistente a ser confrontada com a verdade do Evangelho se essa vier de encontro aos compromissos assumidos com o poder desse século. Cada vez menos comprometida em ser uma embaixada do Reino de Deus, porque já elegeu seus ídolos terrenos, tomou o poder e ganhou cidadania dessa pátria decadente.

Eu não julgo quem usa do artifício “não é sobre política”; ele é uma estratégia para desarmar os apaixonados militantes. Mas seria melhor que assumissemos que o que estamos afirmando possui sim uma consequência política.

A questão é se estamos lendo o Evangelho e, a partir dele, mudamos a forma como nos relacionamos com a sociedade, ou se estamos usando e deturpando o Evangelho para reforçar e validar nossas próprias opiniões.

Novamente, política. Sempre é.

Texto por Hernani Medola.

Posted in Artigos and tagged , , , , , , .