ISTO NÃO É UMA CRUZ

A famosa obra “A Traição das Imagens”, do belga René Magritte, traz a pintura de um cachimbo e, logo abaixo, a frase “Ceci n’est pas une pipe” (isto não é um cachimbo). O artista nos provoca a refletir sobre os significados que damos às representações e como podemos confundir símbolos e realidade.

Na introdução de seu evangelho, João declara que, em Jesus, “Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade” (João 1:14). Toda revelação feita por meio da Lei e dos Profetas é verdadeira, mas incompleta. É eficiente em comunicar a identidade de Deus, mas insuficiente para verdadeiramente experimentarmos Deus. Novamente João, em sua primeira carta, afirma: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, isto proclamamos a respeito da Palavra da vida” (1 João 1:1). Deus extrapolou seus signos e significados: ganhou forma, corpo, cheiro, massa.

Isso não significa, de forma alguma, que antes de Jesus ninguém conhecia a Deus. Deus revelou-se ao longo da história de diversas formas, mas plenamente em Jesus Cristo — e até hoje o faz a nós por meio do Espírito Santo. Mas, tanto antes de Cristo como hoje, estamos sujeitos ao perigo de confundir signos, significantes e significado; a acreditar que as ideias que fazemos de Deus são suficientes para uma experiência de conhecimento d’Ele, que alguma estrutura religiosa, rito, prática ou comportamento vá nos colocar em contato genuíno com o Eterno. Não vão.

As representações são importantíssimas para nossa compreensão do mundo ao nosso redor. Nós sabemos, por exemplo, a teoria sobre como é a estrutura de uma célula, mas ninguém pode acreditar que uma célula real seja como a ilustração que vemos no livro didático. Assim como quase todos nós conseguimos identificar a torre Eiffel, mas meu grau de conhecimento, que consigo a identificar por já ter visto fotos e vídeos da torre, é diferente de quem foi até Paris para poder tirar a foto na torre e postar.

Todo o nosso conhecimento sobre o transcendente adquirido por meio do estudo e da experiência religiosa é importantíssimo, mas não é suficiente para conhecermos realmente a Deus. E boa parte da frustração que muitos nutrem vem do fato de não conseguirem extrapolar a superficialidade de um relacionamento com Deus baseado no que dizem sobre Ele e, de fato, experimentar um relacionamento pessoal e íntimo com Ele.

Deus não é o quadro que pintaram d’Ele.

Texto por Hernani Medola.

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