Li recentemente que pastores nos EUA estão sendo questionados e até perseguidos pela membresia por pregarem o Evangelho. Após realizar o sermão, um pastor relatou que membros afirmaram que as palavras de Jesus sobre dar a outra face “não funcionam mais; são fraqueza”.
Há cerca de duas décadas, houve certo desespero de lideranças evangélicas e sociedades bíblicas do Brasil com relação aos direitos autorais da Bíblia Sagrada. A preocupação era que, com o enquadramento do texto bíblico como sendo de domínio público, pessoas mal-intencionadas alterariam o texto sagrado segundo seus próprios interesses.
Lembro claramente qual era a preocupação primária das lideranças: a retirada de textos da Bíblia que condenam a homossexualidade. Mais recentemente, um pastor batista, que possui um dos mais sólidos e admiráveis ministérios da denominação, foi achincalhado e condenado à fogueira virtual da inquisição religiosa porque declarou que era necessário “atualizar a Bíblia”. Progressista, herege, liberal são as ofensas mais brandas que alguém que desafia a igreja a amor ao próximo, a todos, vai ouvir.
É, no mínimo, irônico que esses mesmos arautos dos valores, da moral e da ortodoxia cristã evangélica olhem com tamanha seletividade para o texto sagrado e carimbem com o selo de “liberal” ou “fraco” as claras palavras do Mestre que dizem seguir.
A questão é que, como diz o apóstolo João em sua primeira carta, se o verdadeiro amor lança fora todo o medo, também é verdade que o medo tem a capacidade de lançar fora todo amor.
Então, se temos medo do estrangeiro, dizemos que a fala de Jesus sobre acolher os estrangeiros está descontextualizada. Por medo da instabilidade econômica dizemos que repartir os bens com os necessitados não se aplica ao contexto econômico capitalista, como se o problema fosse o Cristo e não o sistema econômico.
Por medo da subversão progressista, desconsideramos as palavras de amor ao próximo, de dar a outra face, de acolhimento e graça, para proteger nossa moral e bons costumes. Por medo da violência, desconsideramos o Evangelho e defendemos a violência policial desmedida, o armamento da população, o encarceramento em condições degradantes, a segregação dos pobres e marginalizados.
Por medo, quantos pastores não estão pregando o Evangelho da foram que devem? Por medo, quantas pessoas não estão saindo ou sendo expulsas de nossas comunidades por não se enquadrarem em nossos padrões éticos, estéticos, religiosos ou, pior, políticos? Por medo, quantas pessoas, antes piedosas e amorosas, estão tendo seus corações endurecidos?
E ninguém está livre do risco de, mesmo que inicialmente invadido pelo milagroso amor de Cristo que lança fora todo medo, pouco a pouco devolver terreno ao medo e ir expulsando de si o Amor. Pedro já tinha dado vários passos sobre o mar quando desviou os olhos de Cristo e foi tomado pelo medo.
A questão é que ele afundou rapidamente e pediu socorro, mas nós vamos afundando lentamente, inconscientemente, e, quando a graça de Cristo estende a mão para nos puxar, dizemos que não precisamos; estamos na confortável boia da religiosidade que consideramos nossa salvação. Olhamos pra Jesus e o consideramos fraco, liberal. Acreditamos que nossa lógica solução religiosa/política é muito mais segura do que o milagre do Amor.
Texto por Hernani Medola.

