“Eu me rendo” é uma expressão comum em nossa subcultura evangélica. Está presente de forma destacada em nossas músicas, orações e pregações. Tanto que vem sendo esvaziada de significado. Estamos perdendo a dimensão do que realmente significa estar rendido.
Um sinônimo de “eu me rendo” é “eu desisto”. E só desiste quem tentou. Um lutador que, mesmo empregando toda a sua força, percebe que perdeu a luta, se rende. Um soldado que se vê sem saída na batalha, cercado e dominado, se rende. É a toalha branca, símbolo da rendição, da desistência. Há quem se entregue a Deus de maneira amorosa — privilegiados que cedo enxergam n’Ele a melhor das alternativas para a vida —, mas são minoria. A maioria de nós só se rende depois de lutar até onde é possível.
Como Habacuque, que entra em debate com Deus, mas, no fim, reconhece que, mesmo na miséria, não há alternativa melhor do que Deus; como Jó, com sua aparente submissão, mas que, no coração, resistia e questionava a Deus — e que, no fim, reconhece que foi na aflição que verdadeiramente O conheceu; como o pai que, mesmo procurando ajuda de Jesus, admite sua incredulidade e pede: “Ajuda-me” (pai e filho foram curados naquela ocasião); como Pedro, ao responder a Jesus: “Para onde iremos, se só tu tens palavras de vida eterna?” — não há alternativa, estou rendido. Ou, ainda, como Jacó, que literalmente lutou com Deus, foi por Ele ferido e rendido, mas insiste: “Abençoa-me”; e recebe, além de uma ferida que o deixaria manco, um novo nome: Israel, que significa “aquele que luta com Deus”.
Deus não espera filhos homogêneos, comportados e submissos — até porque não há comportamento nem submissão aparente que esconda de Deus um coração orgulhoso, que confia no próprio mérito e obediência para entrar no banquete do Pai. Deus aguarda e se alegra com os filhos pródigos, rebeldes, que lutam por independência e poder, que realmente acham que conseguem e que, com todas as forças, tentam — mas que, desgraçados e maltrapilhos, voltam rendidos, chorando: “Eu não consigo, eu não mereço, eu desisto, eu me rendo”.
Os que desistem é que nascem de novo.
Texto por Hernani Medola.

