Era mais uma quarta-feira no seminário. Dez da noite, tenho que sair mais cedo pra não perder o ônibus – se eu perder este, só pra lá das onze (e é um ônibus quase como o trem das onze daquela velha canção – se perder, só amanhã de manhã) e ir pra casa depois de um dia consideravelmente cansativo.
-Já passou o ônibus 999-AX?
-Acabou de passar, cara.
Já vi que esta noite será duradoura, infelizmente. Enquanto minutos pareciam horas, cada ônibus que passava brincava com minha miopia, que por sua vez me fazia acreditar que o bendito ônibus estava chegando. E era sempre outro.
Onze da noite. Nada de ônibus. Me lembro de uma linha de taxis digamos assim, financeiramente mais acessíveis, e alguns veículos estavam a poucos metros. Decido ver o preço.
-Quanto fica a corrida, moço?
-Trinta e cinco.
-Você tem daquelas maquininhas de cartão? Vou precisar.
-Olha, eu não tenho, mas você pode pagar a gasolina no posto e tá resolvido!
Foi uma idéia sensacional, e em boa hora. Estava cansado, irritado, chateado com a demora, e cai como uma benção essa solução do taxista. Enfim topei. Entrei no carro e banquei o combustível. E a conversa rolou.
-Nossa, cara, ônibus pra minha cidade neste ponto é uma tristeza!
-Ah, é complicado mesmo. E sem contar que esta região vira e mexe alguém é assaltado.
-Sério?
-Sério! Neste e no ponto seguinte sempre ouço relatos de gente sendo assaltada.
-Tá complicado ultimamente mesmo…
-Mas vem cá, você trabalha por aqui?
-Não, só estudo…
-Estuda o que?
-Teologia
Aí comecei a pensar se talvez traria alguma conseqüência esta resposta. E bem, ele mandou outra pergunta:
-Mas vocês aprendem filosofia e letras né? Porque sabe como é…
-Sim, durante o curso a gente vê filosofia e aprende grego e hebraico.
-Ah, aí é bom. Porque sabe como é, né? É importante ter um aprendizado… digamos assim, laico, junto com a parte de Deus e tal… porque sabe, religião é o ópio do povo.
Aí bateu aquele “SOCORRO, la vai ter papo de ateu, aquela conversinha tensa”. Mas ele prosseguiu e meu temor se foi:
-Sabe, eu sou católico, daqueles não praticantes… mas eu não escondo os erros, sei que teve muito erro, e a gente vê muita manipulação.
-Sim, concordo plenamente contigo. Muitas instituições utilizam de formas opressoras e manipuladoras ao relacionar com os membros.
E nisso eu vi uma oportunidade de explicar um “Reino de Deus” que não passa na TV de madrugada. Que não está a todo volume pela avenida principal da cidade. Que não é foco em nenhuma marcha, seja religiosa ou não. Falando sobre as responsabilidades pastorais, o que é e o que não é um líder. Sobre relacionamentos, comportamento, sobre o que os cristãos deveriam ser e como deveriam agir. E sobre o dever de cada um de tentar chegar neste alvo.
Foi uma oportunidade valiosa. E pude confirmar com um “valeu a pena essa corrida, cara, muito bom conversar com você!”. Não por eu buscar alguma confirmação de que eu seja um cara legal pra trocar idéia. Não por eu ter como objetivo principal ser um cara maneiro. E sim por notar que Deus deu uma oportunidade para eu poder trazer crescimento na vida de alguém. Somar, fazer a diferença na vida de alguma pessoa. O que me faz pensar também em quantas vezes talvez eu tenha perdido essas chances, talvez por esquecer de que, ao contrario do que muitos pregam, Deus não fala necessariamente conosco através de efeitos especiais hollywoodanos. E nem fala necessariamente através de fórmulas mágicas do mundo da auto-ajuda gospel. Ao fecharmos nossos olhos pro simples podemos ignorar muita coisa.
As vezes Ele nos dá um cutucão através de uma inquietação de um taxista.