A Festa da Carne


Talvez nenhuma outra igreja tenha dado mais trabalho a Paulo do que a igreja de Corinto. Na citação anterior (1 Coríntios 11:17), Paulo está tratando da carnalidade dos irmãos não em uma festa secular, mas na realização de uma das mais sagradas reuniões da igreja: a Ceia.

Os irmãos de Corinto usavam a Ceia do Senhor não para a memória do sacrifício de Cristo ou para a celebração da comunhão e unidade da Igreja, mas para dar vazão às suas carnalidades. Divisão, egoísmo, gula, desigualdade… Paulo vai dizer que algumas pessoas passavam fome enquanto outras chegavam a ficar bêbadas — repito, dentro da igreja.

Boa parte do que Paulo escreve aos coríntios também é motivada pela preocupação de que os irmãos da igreja estivessem copiando ou reproduzindo práticas seculares, que identificavam hábitos promíscuos e idólatras. Agora, vou te contar um testemunho: na adolescência, acordei cedo em um sábado, peguei o metrô lotado de gente indo para a mesma festa, quase todos usando roupas coloridas e decoradas, em grupos animados que se reuniram no centro da cidade para seguir um trio elétrico tocando a todo volume músicas de gosto duvidoso, com gente urinando na rua e qualquer garrafa d’água sendo vendida pelo triplo do preço normal. Você consegue me dizer se, nessa ocasião, eu estava em um bloco de carnaval ou em uma Marcha para Jesus?

Faz parte da cultura evangélica demonizar tudo o que não é de seu agrado, enquanto emula tudo o que demoniza, de maneira sacralizada. Vamos contando as purpurinas nos olhos dos outros e ignoramos as vigas em nossos próprios olhos. Afinal, se vestir-se de bobo ou chamar o outro de bobo são igualmente pecados, do ponto de vista do pecado, estamos todos condenados.

“Hain, mas então você gosta de carnaval?”. Do feriado, sim, da festa na rua ou na avenida, não, mas não menos do que gosto das “marchas” organizadas pela igreja evangélica. Multidão, aperto, gente suada e fedida, todo tipo de desconforto e violência para extravasar seja lá o que for não me parece um programa agradável. Frações de euforia que disfarçam montões de perrengues.

Do ponto de vista das consequências, ambos os eventos são danosos. No carnaval, temos alguns recordes negativos: acidentes, agressões, proliferação de doenças, violências diversas, intoxicações… são consequências mais evidentes a curto prazo. Na instrumentalização religiosa, temos violências a longo prazo: doutrinação, planos de poder e de governos, celebração de políticas violentas e excludentes, com o agravante de tudo isso ser feito “em nome de Deus”.

Agora, o que é pior?

Bem, Paulo está preocupado com a igreja. Ele escreve aos irmãos da igreja de Corinto, não para a prefeitura. Se, entre a satisfação dos desejos da carne no sambódromo ou na igreja você está mais preocupado com o que acontece “no mundo”, talvez esteja com problemas de prioridade. Talvez nos incomodemos demais com o falso amor que explode nas trincheiras de uma aparente alegria e sejamos negligentes e condescendentes demais com a violência e dominação que explodem nas trincheiras da religião.

Texto por Hernani Medola.

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