
Um grande filósofo cético disse que a religião é a desculpa dos fracos, porque não há lógica em afirmar que o mais forte não merece subjugar o mais fraco. Lembra daquela conversa sobre as pedras clamando, a mula falando e tudo o mais? Aleluia! Esse cético entendeu a mensagem que muitos crentes não conseguem.
Quando Jesus, ao iniciar seu Sermão da Montanha, diz que os bem-aventurados — ou seja, os sortudos, mais do que felizes — são os fracos, é porque, na fraqueza, é muito mais fácil desejar um reino que traz igualdade. É o pobre que fica feliz em entrar em um reino de equidade; quem é rico não aceita prontamente que deve abrir mão de suas riquezas.
É quem chora que celebra a chegada do consolo; quem está feliz da vida pouco se importa. É o injustiçado que celebra a chegada da justiça; quem entrou nos esquemas desta era quer mais é que o novo reino demore ou nem venha.
Quando Maria, cheia do Espírito e abrigando a eternidade em seu ventre, canta, ela diz: “Deus derruba dos seus tronos reis poderosos e põe os humildes em altas posições. Dá fartura aos que têm fome e manda os ricos embora com as mãos vazias” (Lucas 1:52-53).
É o cão faminto que clama, celebra e se delicia com as migalhas que podem cair da mesa. Os saciados reclamam da falta de variedade do maná que cai do céu.
“Não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário. Senão, tendo demais, eu te negaria, te deixaria e diria: ‘Quem é o Senhor?’. Se eu ficasse pobre, poderia vir a roubar, desonrando, assim, o nome do meu Deus” (Provérbios 30:8-9).
Um reino de igualdade é boa notícia para quem sofre na desigualdade, não para quem se beneficia dela. A injustiça da nossa era se sustenta não pela escassez de recursos, mas pelo pecado do egoísmo. Nossos recursos não são infinitos, mas são suficientes. A meritocracia só faz sentido se pensarmos que é justo distribuir recursos limitados entre os considerados merecedores de forma ilimitada. E nos viciamos no mérito. O evangelho é a boa notícia de um reino de recursos ilimitados, distribuídos graciosamente, sem mérito algum.
E o exercício de implantar, nesta era, o Reino anunciado é aprender a se satisfazer com o suficiente, trabalhando para que todos experimentem o prazer de ter o suficiente, não por merecimento, mas por graça. Isso é uma notícia maravilhosa, não para quem acumulou bens e diplomas para satisfação da sua própria barriga, mas para os mulambos e maltrapilhos, aqueles que consideramos azarados.
Eles é são os sortudos.
Texto por Hernani Medola.
