Teologia de Boteco | Poder Pastoral, uma visão foucaultiana, com Rafaela Cardoso – #049

Hoje, trouxe ninguém mais ninguém menos que a minha queridíssimo amiga, Rafaela, para conversar sobre um tema muito espinhoso, o PODER PASTORAL,  a partir da obra de um grande pensador, Michel Foucault… Pegue um banquinho e peça uma catuaba, que o tema rende… Teologia de Boteco 49 Poder Pastoral

 

citado no programa:
Foucault no Brasil – aqui

Margareth Rago: Foucault – Para uma vida não fascista – aqui

A dissertação do João Clemente que usamos como base – aqui
Texto da Rafaela: “Foucault sobre Kant: Considerações acerca da Aufklärung no curso de 1983 ‘O governo de si e dos outros'” – aqui
Roberto Machado Zahar: História da Loucura e Crítica da Razão – aqui
Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão – aqui

 

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  • Tia do Bátima

    Que aula sensacional. Curti demais.

    Mesmo tendo lendo quase nada do Foucault, tenho bastante contato com pessoas que trabalham com análise do discurso (na sua tradição francesa) e o têm como uma das bases teóricas fundamentais. Por conta dessa turma, acabei pegando birra com ele, pois os trabalhos do núcleo de AD da UFMG são bem ruins. Um dia, quem sabe, vou ler esse calvo garboso e pirar ainda mais na humanas… hehe

    Enquanto isso, faço um questionamento… Lá vai:

    No fim do programa, a Rafaela cita Margareth Rago: “sempre onde há poder, há resistência; onde há governamentalidade, há contra-conduta”. Sabendo que o Foucault tem uma relação muito forte com Marx, proponho também uma relação com um outro leitor de Marx: Theodor Adorno. O cara diz que um sistema sempre prevê a sua própria resistência. No nosso caso, um cristianismo opressor vai prever dentro de sua ideologia pontos de resistência e armar-se contra subversivos. Não à toa ouvimos coisas tiradas da própria Bíblia como “não tocar no ungido”, “Deus revelou esta verdade absoluta e inegável”, “Deus ungiu Fulano como profeta” (esta última vale para qualquer grupo, desde os mais capitalistas/criminosos até os mais reformadões).

    Diante disso, pergunto: como podemos de fato resistir ao poder pastoral? Pois se resistirmos nos termos que o próprio poder apresenta, só estamos fortalecendo este sistema. Ao tentar imaginar um cenário possível, enxergo no próprio Jesus uma subversão total, que rompe com qualquer paradigma que lhe foi, é ou será apresentado. A pergunta então seria: como Jesus resistiu ao poder pastoral de sua época? E como ele resistiria ao de hoje?

    Não tenho resposta. De verdade. Giordano Bruno feelings…

  • então, mano, não sou a rafa mas vou tentar falar um pouco do que eu penso sobre isso:

    Nessa perspectiva de que o sistema sempre prevê a sua própria resistência temos que encara como a RESISTÊNCIA sendo PARTE do próprio sistema, mas não podemos imagina-la unica e monolítica. Num processo mais amplo de analise, acredito que o sistema tende a cooptar toda tentativa de insurreição para que, fazendo parte do sistema, acabe perdendo sua efetividade. São os famosos: “Não vou largar minha igreja por mais que saiba das tramoias do pastor, vou muda-la de dentro pra fora”. Nesse caso, me perdoe quem discorda, mas não faz nenhum efeito MUDAR DE DENTRO, pois, enquanto estamos dentro, temos nosso discurso limitado pela liderança enquanto sustentamos a mesma… Outras estratégias podem surgir, surgindo, também são passiveis de tentativas de compra por parte dos dominadores e assim, cabe aos insurgentes, manterem-se livres e autônomos para que essa insurreição culmine em uma mudança de FATO e ruptura com o sistema…

    Será que me fiz entender? nunca saberemos! hahahaha

  • Tia do Bátima

    Você não é a Rafa, mas é um lindo. E isso me basta…

    Concordo plenamente com a coisa do “mudar de dentro”. A luta feminista, ao meu ver, tem perdido feio. A partir do momento que isso aqui acontece (https://www.youtube.com/watch?v=hAal-CRqRWA), onde a indústria cosmética produz um comercial “feminsto”, vemos que o espetáculo é implacável em destruir qualquer ideal (como no episódio “Fifteen Million Merits” do Black Mirror). Tenta-se mudar as relações de gênero (que questionam na ideologia vigente as noções acerca do sexo, da identidade sexual, do próprio gênero, da orientação sexual e da liberdade individual) sem mudar o próprio sistema hegemônico, o que possibilita a este sistema sequestrar a luta e modificá-la ao seu bel prazer.

    A pergunta de um milhão de reais (em barras de ouro que valem mais do que dinheiro) para minha vida ainda permanece: quais seriam outras estratégias que nos permitem lutar contra a opressão de um sistema que, de certa forma, fazemos parte?

    Retomando podcasts passados, acredito que iniciativas como pensar em igrejas locais mais orgânicas e até a Contra Marcha podem caminhar no sentido de se afastarem do poder pastoral. Mas ainda assim a pergunta me assombra dia a dia, pois não tenho uma resposta e nem sei direito onde procurar.

  • Rafaela Cardoso

    Olha esse comentário, bicho! hahaha obrigada. 🙂

    1- Antes de tudo, é importante lembrar que Foucault levanta problemas, mas raríssimas vezes dá uma solução pra eles, então nem sempre achamos algo na leitura dele, é a gente quem tem que investigar se existe alguma relocando o problema ao nosso contexto.
    2- Não sei se isso ficou bem entendido, mas a expressão da Margareth e o conceito de relações de poder e governamentalidade pro Foucault necessitam de resistência/contra conduta. é praticamente uma condição de possibilidade, o poder tem que saber que ele só acontece pq do outro lado tem uma resistência que pode virar esse jogo para si.
    3- Não sei se disse e ñ tenho leitura do que Foucault fala acerca de Adorno, mas é uma perspectiva interessante, e se não estou errada, uma forma de resistência pra ele seria a arte, que a todo momento deve ser revolucionária.
    4- Na minha leitura, tanto na perspectiva de Foucault quanto na de Cristo, a parrhesia (fala franca) foram as formas de resistências ao poder pastoral e contra condutas encontradas. Vejo isso no caso de Foucault até por uma questão de investigação e método. Após os anos 70, onde ele investiga os lugares onde o poder se excerce e dps a questão da governamentalidade ele parte pras pesquisas sobre parrhesia e cuidado de si. No caso de Cristo, além de Ser a Verdade, ele sempre foi claro e verdadeiro naquilo que falava e tb em suas práticas. Quanto ao que Cristo faria para resistir ao poder hj, também não sei dizer, mas aposto numa configuração mais robusta da parrhesia em conjunto com outras práticas.
    5- Quanto as nossas práticas de resistência, creio que parrhesia em conjunto com ação direta e tática black block seja um bom trio! HAHAHAHA

    obrigada pela participação!

  • Tia do Bátima

    Carai! Outra aula.

    Quando for pra Curitiba, quero participar da Contra Marcha puxando um cordão de crente mascarado numa formação tática de black block… Vai ser interessante…

    Rafa, teria alguma indicação de leitura sobre parrhesia? Fiquei muito interessado em conhecer mais sobre esse conceito na obra do Foucault.

  • Rafaela Cardoso

    hahaha bondade sua! 🙂
    pô vem sim, seria mt loco!!
    vixi, tem mt coisa pra indicar. de comentadores, indico o livro “Foucault e a coragem da verdade” do Frédéric Gros, o artigo da profa. Salma Tannus Muchail da PUC-SP intitulado “O dizer verdadeiro e seus oponentes” que está no livro “Foucault: Filosofia & Política” da Editora Autêntica. E tb o artigo do Prof. Cesar Candiotto chamado “Parrhesia Filosófica e Ação Política: Platão e a leitura de Foucault” – http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31732010000200010&lang=pt

    De obras do próprio Foucault, a parrhesia aparece primeiro nas aulas de 2 e 9 de março de 1982 no curso “A hermenêutica do sujeito”. No curso de 83, “O governo de si e dos outros” ele fala só de parrhesia msm e começa a tratar de parrhesia democrática. Continua essa pesquisa no curso de 84 “A coragem da verdade”. Essas três obras você acha em pdf na internet.

    é isso.
    boas leituras! 🙂

  • Pedro

    Não conhecia Kant mas achei o programa bem interessante, agora falta apenas ler os materiais do post e reouvir o episódio.