Porque somos mais do que nossa aparência

formatura

Para dar início ao texto de hoje, contarei uma pequena anedota.

“Colação de grau de um curso universitário X (insira o curso que lhe vier à mente). As formandas e formandos entram no ambiente com suas fotos de criança sendo exibidas no telão. Momento de alegria. Momentos (longos) depois, é a hora em que cada formando caminhará até a mesa de professores para ser oficialmente um formado. Aí começam os gritos.

– LINDA! 

MARAVILHOSA!

No salão, não se ouve nenhum:

– Será uma ótima profissional!

– Os concorrentes que se cuidem!”

Fim da anedota.

***

A cada nova formatura  que vou, sempre me incomodo com este momento. Parece que aquelas mulheres que estudaram por 4, 5 ou mais anos só merecem estar ali por sua aparência. Seu belo porte físico e nada mais. Merecem estar ali por terem feito dietas malucas para caberem no vestido do baile, e não por terem virado noites estudando, enfrentando perrengues para conseguir conciliar vida acadêmica com trabalho, família, companheiros ou companheiras. As futuras profissionais que serão não tem valor diante de seus belos corpos, cabelos e maquiagens. Ninguém quer saber se a mulher em questão já sabe em que área atuará, se pensa em emendar num mestrado ou se já tem um emprego garantido. O que importa é que elas – e todo o resto da audiência – perceba que elas são lindas. E além disso, há sempre aquela competição de qual grupo de amigas ou familiares gritará mais alto, pois assim a vitória será garantida para aquela que for mais exaltada. É a famosa síndrome da Woo Girls. 

A questão a que quero chegar é que as mulheres, infelizmente, ainda são valorizadas apenas por sua aparência, e não pela competência naquilo em que estão expostas naquele momento. Tirando o foco das formaturas, já vi este tipo de coisa acontecer em diversos ambientes: comentários em fotos de redes sociais, casamentos, festas de aniversário, em programas de competição onde não é a beleza pessoal que está sendo avaliada, e pasmem, até em um culto. A mulher estava lá como pregadora competente, convidada a trazer uma palavra de reflexão, e da plateia vem um “Linda!”. Sério, é de querer morrer, enquanto mulher, ouvir um troço destes. Nada do que aquela mulher tem a falar é válido, a menos que ela seja linda.

Está mais do que na hora de as pessoas perceberem que há diversas outras formas de elogiar mulheres, que são muito mais condizentes com a atividade exercida naquele momento. Uma cirurgiã com certeza ficará feliz em ter realizado uma boa cirurgia, mesmo que não receba um Linda ao final da mesma. Uma advogada, uma professora, uma mãe e assim por diante. Apesar de nossa sociedade pautar que as mulheres só tem valor a partir de sua aparência física, nós nos dedicamos tanto quanto os homens para estarmos nos cargos profissionais que ocupamos ou para cuidar de sua família, portanto, queremos ser respeitadas, admiradas e elogiadas por isso. Portanto, deixe o linda para quando a beleza for o mais importante.

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  • Tia do Bátima

    A sociedade do espetáculo busca pessoas lindas para o grande show da vida (“É Fantásticô!”). Em tese, vale tanto para homens quanto para mulheres.

    Mas o espetáculo é regido por homens capitalistas. Então, em primeira instância, precisamos que estes sejam entretidos. Portanto, importa que as mulheres do espetáculo sejam maravilhosamente lindas, e, para atingir este patamar de beleza, precisam consumir os mais variados produtos (desde academia até cirurgias).

    Na sociedade do espetáculo, a ética dá lugar à estética.

    E muitos crentes ficam aí se preocupando se a hipótese correta é supralapsariana ou infralapsariana…